sábado, 13 de março de 2010

Biografia de Teodora C.

Pseudônimo literário e existencial de Clara C., Teodora brinca com a dor para que Clara transforme o céu azul em tempestade.

Criança, Clara na igreja repetia passagens do Decamerão para que os padres soubessem com quem lidariam em suas catequeses. Mais tarde, Teodora, ainda no Inferno, brincou e previu palavra por palavra o Purgatório e o Céu, enquanto Clara no Quixote desejou ser os moinhos de vento. No Grande Sertão, Clara e Teodora foram Diadorim, ali realizaram pela primeira vez o pacto com o diabo (ou eram o próprio diabo? Mas por acaso o diabo também não precisa de um pacto consigo próprio para cumprir a sua sina?), e pela primeira vez se divorciaram de Deus, mas descobriram-se infiéis por constatemente traírem o primeiro com o último. Mais tarde chegariam a Portugal, mas aí falo de mulheres adultas e ainda estou nas duas infâncias.

Menina, Clara enfeitiçava os meninos da rua com pele e cabelos índios, Teodora assustava-os com línguas nórdicas e cantos celtas. Na adolescência, como é de praxe, Teodora prevaleceu sobre Clara, mas dessa época ficou a certeza de que Céu e Inferno, Deus e o Diabo, sexo e castidade, não passam de moinhos de vento. Essa época obscura para sempre ficará obscura, pois está presa no íntimo e na psiquê de Teodora.

Mas veio a vida adulta e Clara começou a iluminar o mundo com sua presença que cegava, que às vezes sufocava, e que também podia enlouquecer os menos preparados para a vida. Precisavam de uma profissão, Clara tornou-se entomologista, Teodora poetisa. Clara colocava o pão à mesa, supria-se interiormente com a descoberta de mundos velados, apagados ou esquecidos, enquanto Teodora supria os outros com palavra e beleza, mas claro, às vezes dor. Por essa época fizeram amizade com "Asterião" e "Dentes Roxos", ambos da estirpe dos seres sem solução. Entre vinhos, massas, ervas finas e risos embriagados, ela os apaixonou, e cada para um lado foi cumprir o seu purgatório. "Asterião", poeta, descobriu duas novas espécies de flor e batizou-as de Clara e Teodora, hoje vive de acordo com as floradas dos Ipês. "Dentes Roxos", ágrafo, resolveu tornar-se projetista de cidades, criou duas que batizou de Clara e Teodora, mas que depois teve que jogá-las ao lixo ao descobrir serem cidades já existentes. Desde então ensaia fugas para cidades longíquas, mas não conseguiu ainda atravessar a soleira da casa paterna.
Um dia o coração de Clara e Teodora deveriam tornar-se um, tal tarefa coube ao "Pintor", que em um jogo baixo pintou retratos de ambas muito antes de conhecê-las.

Clara, a entomologista, precisou criar um segundo pseudônimo, Aurora C. Essa nova Clara precisou existir para cuidar de escritores portugueses com os quais Clara passou a dividir suas tardes acadêmicas. Mas esse é apenas um pseudônimo, não uma personalidade, assim Teodora, pela mão, levou Clara ao encontro de anciãos que descortinariam a África e a Europa à entomologista. Em África, Clara ouviu histórias sobre guerras, coletou tradições negras, civilizou-se em costumes bárbaros, transformou em imagens memórias de outros. Em Europa, Teodora às margens do Tejo olha as águas que nunca param, imagina, constrói, inventa, vive, morre, renasce. Teodora para sempre estará caminhando pelas ruas estreitas de Lisboa, se assustará com a luz da cidade, se embebedará de vinhos e Pessoa.

Clara, de volta à sua cidade, ao seu continente, sabe que Teodora a espera em Portugal. Clara não pode ser apenas uma, pois um é pouco para quem nasce para ser muitos. Clara e Teodora voltarão a se encontrar daqui a um ano, o encontro está marcado. O destino de ambas deve ser cumprido, pois Deus e o Diabo, com seu pactos e devaneios, exigem isso dos homens. Clara, longe, deixará muita saudade, e para isso, não à toa, Aurora C. deve cumprir suas obrigações acadêmicas, pois a poesia espera Clara C. do outro lado do oceano.

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