quarta-feira, 7 de abril de 2010

Biografia de Renata G.

Ela surgiu em um início de dezembro, enquanto ele tomava uma xícara de café. O ambiente era hostil, pois entre girondinos e jacobinos sempre preferiu os últimos e o terror. Como ele aprenderia depois, os passos dela eram os passos de um furacão, e aquilo assustou-o em um primeiro momento. Ele sentado a viu cruzar o café  e parar por alguns instantes frente ao balcão, desejou que fosse aquela menina, mas ela se foi tão acelerada quanto entrou.

Minutos depois ela surgiu do seu esconderijo no outro lado da rua e sorriu. A ele restava caminhar até ela e se deixar cair. O primeiro contato com a pele  foi suave e terno, mas o cheiro, mesmo com toda resistência, se empregnou nele, prendendo-o e tornando-o escravo. Mas no início já estava o fim, a camisa com pequenas cerejas que tão bem ficava nela e a tornava mais desejável do que ele podia suportar, seria a mesma que vestiria quando dissesse a ele que era hora de ir em frente, de buscar algo novo para a vida.

Mas entre isso houve muitas palavras em um banco, houve os sonhos se mostrando, houve os gostos que o seduziram, houve um homem caído por uma mulher. E houve a história de um "vilinha", houve a senhora da "vilinha" junto às lágrimas da menina (as únicas que merecem ser lembradas) com saudade de alguém que gostou. Houve família e viagens, houve amor, depois amor abraçado com dor, e depois dor, apenas dor.

Então a menina se tornou Renata G., a mulher a viajar pelo mundo. No Rio foi o que sempre quis, em São Paulo redesenhou o mundo tornando-o mais belo, em Londres (não Sevilha, mas Londres), encontrou a cidade que a vestia (não o deserto, mas as ruas cosmopolitas), em Paris foi Maga perdida por ruas, pontes e terrenos baldios, em Amsterdã brincou de esvaziar os canais, na Palestina foi judia e árabe (e ele quando pensa em judeus e árabes pensa em Renata. Amor e ódio, ternura e mágoa, desejo e medo, os opostos, sempre os opostos a se enroscarem até o último dia).

Renata G. se casou com um homem que a amava e que amava. Ele era alto, sociável, engraçado, escrevia romances e tinha a barba ruiva. Tiveram filhos que Renata ensinou o que significa amar, confiar e se entregar. A eles falou do passado, de pessoas grandes e pequenas, de corajosos e covardes, mas não chorou pois tinha que lhes ensinar que nem tudo vale uma lágrima, que nem tudo merece ser saudade.

sábado, 13 de março de 2010

Biografia de Teodora C.

Pseudônimo literário e existencial de Clara C., Teodora brinca com a dor para que Clara transforme o céu azul em tempestade.

Criança, Clara na igreja repetia passagens do Decamerão para que os padres soubessem com quem lidariam em suas catequeses. Mais tarde, Teodora, ainda no Inferno, brincou e previu palavra por palavra o Purgatório e o Céu, enquanto Clara no Quixote desejou ser os moinhos de vento. No Grande Sertão, Clara e Teodora foram Diadorim, ali realizaram pela primeira vez o pacto com o diabo (ou eram o próprio diabo? Mas por acaso o diabo também não precisa de um pacto consigo próprio para cumprir a sua sina?), e pela primeira vez se divorciaram de Deus, mas descobriram-se infiéis por constatemente traírem o primeiro com o último. Mais tarde chegariam a Portugal, mas aí falo de mulheres adultas e ainda estou nas duas infâncias.

Menina, Clara enfeitiçava os meninos da rua com pele e cabelos índios, Teodora assustava-os com línguas nórdicas e cantos celtas. Na adolescência, como é de praxe, Teodora prevaleceu sobre Clara, mas dessa época ficou a certeza de que Céu e Inferno, Deus e o Diabo, sexo e castidade, não passam de moinhos de vento. Essa época obscura para sempre ficará obscura, pois está presa no íntimo e na psiquê de Teodora.

Mas veio a vida adulta e Clara começou a iluminar o mundo com sua presença que cegava, que às vezes sufocava, e que também podia enlouquecer os menos preparados para a vida. Precisavam de uma profissão, Clara tornou-se entomologista, Teodora poetisa. Clara colocava o pão à mesa, supria-se interiormente com a descoberta de mundos velados, apagados ou esquecidos, enquanto Teodora supria os outros com palavra e beleza, mas claro, às vezes dor. Por essa época fizeram amizade com "Asterião" e "Dentes Roxos", ambos da estirpe dos seres sem solução. Entre vinhos, massas, ervas finas e risos embriagados, ela os apaixonou, e cada para um lado foi cumprir o seu purgatório. "Asterião", poeta, descobriu duas novas espécies de flor e batizou-as de Clara e Teodora, hoje vive de acordo com as floradas dos Ipês. "Dentes Roxos", ágrafo, resolveu tornar-se projetista de cidades, criou duas que batizou de Clara e Teodora, mas que depois teve que jogá-las ao lixo ao descobrir serem cidades já existentes. Desde então ensaia fugas para cidades longíquas, mas não conseguiu ainda atravessar a soleira da casa paterna.
Um dia o coração de Clara e Teodora deveriam tornar-se um, tal tarefa coube ao "Pintor", que em um jogo baixo pintou retratos de ambas muito antes de conhecê-las.

Clara, a entomologista, precisou criar um segundo pseudônimo, Aurora C. Essa nova Clara precisou existir para cuidar de escritores portugueses com os quais Clara passou a dividir suas tardes acadêmicas. Mas esse é apenas um pseudônimo, não uma personalidade, assim Teodora, pela mão, levou Clara ao encontro de anciãos que descortinariam a África e a Europa à entomologista. Em África, Clara ouviu histórias sobre guerras, coletou tradições negras, civilizou-se em costumes bárbaros, transformou em imagens memórias de outros. Em Europa, Teodora às margens do Tejo olha as águas que nunca param, imagina, constrói, inventa, vive, morre, renasce. Teodora para sempre estará caminhando pelas ruas estreitas de Lisboa, se assustará com a luz da cidade, se embebedará de vinhos e Pessoa.

Clara, de volta à sua cidade, ao seu continente, sabe que Teodora a espera em Portugal. Clara não pode ser apenas uma, pois um é pouco para quem nasce para ser muitos. Clara e Teodora voltarão a se encontrar daqui a um ano, o encontro está marcado. O destino de ambas deve ser cumprido, pois Deus e o Diabo, com seu pactos e devaneios, exigem isso dos homens. Clara, longe, deixará muita saudade, e para isso, não à toa, Aurora C. deve cumprir suas obrigações acadêmicas, pois a poesia espera Clara C. do outro lado do oceano.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Biografia de Ricardo Garro

Naceu e morreu. No meio, ágrafo, nada escreveu, mas projetou dois ou três romances comprovadamente. O primeiro teria 800 páginas e revolucionaria os meios literários, o segundo 731 páginas e seria execrado pela crítica e os meios acadêmicos. O terceiro e último (mas a respeito desse haveria dúvidas de sua autoria) talvez não chegasse a 100 páginas, seria um misto de confissão de amor, pedido de desculpas e espólio sentimental. Por esse romance seria eleito para a Academia Mineira de Letras depois de árdua disputa. Por esse romance ele se mataria.